quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Atrações e distrações

Estranho amor no asfalto, sempre tão perto e distante, de opostos e semelhantes. A fome que move concretos, a fúria que lança fios de alta tensão em morangos silvestres. Força que move carroças solitárias, fraqueza que tranforma pensamentos em gado, e gado em dólares.

Estranha beleza da natureza anárquica cotidiana.

Simples à Simples.

Do simples surgiu o rizoma.
A assim surgiu-se uma nova raça de colunas e vigas brilhantes.

Mas tudo voltou ao pó novamente, justo quando o império abraçou o céu e o céu, por sua vez, ardeu em chamas cinzentas de egocentrismo.

Inversões cotidianas

Os tambores fazem o barulho que meu coração deveria fazer. Hoje o show é cheio de espetáculos e fogos de artifício. Como uma criança, vejo a joaninha caminhar entre meus dedos, e de repente tudo fica silencioso.

Hoje é um dia momerável. Verde eu vejo o que não se deve ver. Os cigarros queimam e as pessoas bocejam. O sol está no lugar onde deveria queimar, a água fazendo o barulho sereno que deveria fazer e a cidade está descansando como num utópico feriado ou numa madrugada fresca. A chuva mal começa e os sapos já coacham, enquanto os humanos se abrigam em seus lares quentes.

Um dia depois acordo e meu coração faz o barulho que um tambor deveria fazer.

Imaginários do Cotidiano - O trem

A criança entra no trem junto à mãe, que estava com a mesma expressão do dia anterior. Estava lotado, mas com um assento vago. O sol estava batendo forte, e fazia reflexos no teto do vagão. A pequena menina senta e sorri: ela sempre gostou do sol batendo em sua cara em manhãs frias.

A locomotiva dá partida e faz aquele barulho engraçado, meio mecânico, meio eletrônico. Os reflexos começam a tomar forma. E assim a diversão começava, na medida que ela reconhecia e imaginava uma série de animais e objetos naqueles brilhos aparentemente disconexos para sua mãe e o resto dos passageiros. Para seu encanto, um velho sentado sorri para ela e aponta para um cachimbo: ele não falara para a menina a palavra em si, mas ela havia entendido perfeitamente.

O homem com a barba feita estava dormindo. A estudante ao seu lado escutava uma música estranha. Os rapazes feios de bigode conversavam com palavras que um executivo - que lá não havia - não iria entender.

No velho e no novo sempre há um fascínio, e sempre há uma conexão única, onde os intermediários sempre sonambulam.

Ligações invisíveis

A gente tem sempre uma mentira para acreditar.
E uma verdade para distorcer.
Meus pensamentos não são um só.
O espaço me molda assim como o tempo me prende.

O mendigo reclama da chuva.
O imaginário explode com um raio.
Faíscas saem de uma mente alegre.
E a alegria sorri com uma beleza tentadora.

E mais nada faz nexo.
Porém tudo é conectado.

Cidades Brancas

O homem anda como se fosse uma criança, engatinhando. Ele nunca havia estado ali e não havia presenciado uma materialidade sequer. Não sabendo o que se está passando, ele apenas anda e procura peculiaridades no branco infinito. Encontra então um urso de pelúcia, que desmancha em suas mãos assim que o aperta.

O homem não sorri e não chora, mas consegue sucumbir com o fenômeno. Ele está aprendendo a sentir ainda. Muito blocos ele vê ao fundo do horizonte, e entorta sutilmente sua cabeça como um animal curioso. Ja de pé, e com uma respiração um pouco tensa, anda em direção aos blocos invisíveis.

Ao entrar no emaranhado de colunas e vigas brancas de ferro, ele sente alguma presença, alguma sensação que também nunca havia sentido antes - a vertigem, meus caros, o afeta de um modo insano.

Assim o homem aprende a correr, em busca de sua pressuposta sobrevivência. Ele vê alguns corpos semelhantes ao dele no chão, mas tudo o que pensa é que deve correr e deixar todo este cataclisma infinito para trás.

Então algo começa a bipar. Bip Bip Bip. O homem estava bipando. Assustado, ele observa que o estranho barulho eletrônico vinha de seu braço, especificadamente em seu punho. e como tudo era novo para ele, não se assustou ao ver que haviam dois Leds piscando em vermelho. Ao pressionar os leds, o punho se abriu, não jorrando um grotesco sangue, mas sim duas baterias que caem ao chão.

O homem então sucumbe novamente, ao perceber que seu coração nunca bombeou uma gota de sangue sequer para seus órgãos que não possuía.